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Indústria exporta menos e déficit supera US$ 31 bilhões

Argentina e falta de competitividade explicam piora

Argentina e falta de competitividade explicam piora

 

O déficit da indústria de transformação atingiu US$ 31,5 bilhões nos 12 meses encerrados em setembro. Para 2019, a estimativa é que o resultado fique próximo disso, o que levaria a um rombo quase nove vezes maior que o saldo negativo de US$ 3,2 bilhões registrado em 2017.

No ano passado, o déficit do segmento foi de US$ 25,2 bilhões. Os cálculos são do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

Rafael Cagnin, economista do Iedi, diz que o resultado reflete a contribuição quase nula do setor externo para a reativação da economia em 2019. E em boa medida, diz ele, isso se deve à tendência de ampliação do déficit externo da indústria. O saldo negativo, destaca ele, chegou a praticamente zerar nos anos de crise recentes e agora caminha em direção ao nível anterior à recessão.

deficit crescente

O déficit em si já era esperado, diz Cagnin. Mas a deterioração, segundo ele, se deu neste ano pelas “razões erradas”. O que se esperava, lembra, era uma retomada mais consistente do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e a recomposição das importações. O que vem acontecendo em 2019, porém, é a expansão do déficit da indústria como resultado de uma queda mais intensa nas exportações, e não de aumento das compras externas.

No acumulado em 12 meses até setembro, os embarques da indústria de transformação caíram 5,3% em relação aos 12 meses anteriores. Na mesma comparação, as importações da indústria ficaram praticamente estáveis, com redução de 0,6%.

Um dos fatores importantes para a queda das exportações, diz Cagnin, é a crise da economia argentina. O total de exportações brasileiras ao país vizinho, de produtos industriais e não industriais, caiu de US$ 12,87 bilhões para US$ 7,5 bilhões de janeiro a setembro de 2017 para igual período deste ano.

Outro fator é o baixo crescimento do comércio internacional, sob influência do conflito entre EUA e China. Depois de ter crescido 5,5% em 2017, o volume de comércio mundial de bens e serviços não deve passar de 1,1% neste ano, segundo projeções mais recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Mas, além de questões conjunturais, o quadro deixou evidente a falta de competitividade estrutural da indústria brasileira. “Os dados mostram que estamos em um longo processo de piora da composição da pauta exportadora de produtos manufaturados”, afirma o economista do Iedi.

Cagnin ressalta que a deterioração do saldo comercial da indústria de transformação brasileira afeta todas as faixas de intensidade tecnológica. O caso mais acentuado, porém, está localizado na indústria de média-alta tecnologia. Esse grupo inclui o ramo de veículos automotores, reboques e semirreboques, com exportações fortemente afetadas pela crise argentina.

Os embarques do setor de automóveis totalizaram US$ 11 bilhões nos 12 meses até setembro. O desempenho contribuiu para um déficit de US$ 1,98 bilhão no período. Em 2018, as vendas externas do segmento chegaram a US$ 14,2 bilhões. O déficit no ramo de veículos automotores ficou em US$ 752 milhões no ano passado.

Pelo levantamento do Iedi, o déficit do grupo de média-alta intensidade tecnológica se expandiu de US$ 26,3 bilhões em 2017 para US$ 43,1 bilhões em 2019, considerando neste último caso o acumulado em 12 meses até setembro de 2019. No grupo de alta tecnologia, que inclui o ramo aeronáutico, o rombo se ampliou de US$ 17,9 bilhões para US$ 20,8 bilhões na mesma comparação. Os dados, diz Cagnin, mostram recorrente encolhimento da participação de produtos de maior tecnologia nas exportações totais da indústria de transformação.

Em 2000, destaca o economista, as indústrias de alta e média-alta tecnologia respondiam por 43,5% das exportações da indústria de transformação, mas por apenas 31,9% em 2019, considerando os 12 meses até setembro. “Esses são setores importantes, mais dinâmicos, com cadeias mais longas e complexas, com maior capacidade de puxar outros ramos da economia”, avalia Cagnin. E são setores, diz ele, com produtos de maior valor agregado, que poderiam contribuir mais para inserir o Brasil nas cadeias globais de valor.

Ao mesmo tempo, os ramos menos intensivos em tecnologia também têm enfrentado mais dificuldades, segundo Cagnin. A indústria de baixa tecnologia, destaca ele, único grupo a apresentar saldos sistematicamente positivos, viu o seu superávit recuar de US$ 40 bilhões em 2017 para US$ 35,7 bilhões nos 12 meses encerrados em setembro.

Com declínio tanto nas exportações como nas importações, esse grupo reúne ramos como alimentos, têxteis e couros e calçados.

Fonte: https://valor.globo.com/

18/11/2019

 

 

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